"Estrelas" na Formação? Não, obrigado!


“Não se preocupem porque no nosso campeonato vocês (defesas) não vão encontrar avançados com a qualidade do Chico (nome fictício)”, diz um Treinador aos seus jogadores sub-15. Ou o Chico é um mini-Messi em potência a militar nos Distritais ou então há aqui alguém que está a agir de forma menos correcta. Duplamente.
Sendo certo que um mini-Messi em potência não estaria a jogar nos distritais de sub-15, resta-nos então perceber quem é que está a agir de forma duplamente incorrecta...
Ora, não é difícil concluir que o erro se encontra nas palavras e na atitude do Treinador. Primeiramente porque está a menosprezar os seus próprios jogadores (os outros avançados), levando a que os restantes elementos do plantel possam questionar se essa opinião não poderá vir a ser extensível a si mesmos. E em segundo lugar porque, ao “endeusar” o Chico, o Treinador está a dar demasiada “moral” a um jovem de 13/14 anos, precisamente numa das fases mais sensíveis da sua vida, no que diz respeito à formação e definição de personalidade.
Se o primeiro erro é um erro crasso em termos de Liderança e Gestão de Grupo, o segundo erro é aquele que, na minha opinião, mais irá influenciar negativamente o atleta no seu percurso enquanto futebolista, tanto individual como colectivamente. E é sobre a tipologia do segundo que vos quero falar hoje.


Um Treinador, quando decide “endeusar” um jogador, deve ter em conta que esse género de comportamento irá ter o seu reflexo directo no próprio comportamento do jogador. E quanto maior for o grau de sintonia, amizade e compatibilidade entre ambos, maior será a influência negativa que esse “endeusamento” vai exercer sobre o jogador em questão.
Neste caso de que vos falo, o Chico é claramente um jogador acima da média...tendo em conta o contexto em que está inserido. E isso faz toda a diferença. Porque naquele contexto específico, inserido única e exclusivamente naquele grupo de trabalho, o Chico destaca-se. Só por isso. Apenas e só por isso. Dúvidas?
Sejamos sinceros: quantos “Chicos” já nos passaram pelas mãos ao longo das nossas carreiras de Treinador? Quantos “Chicos” já não foram tema de conversa em tertúlias ou reuniões entre Treinadores? Quantos “Chicos” não nos serviram já de exemplo para debates, colóquios ou palestras sobre Liderança e Gestão de Grupo?
Pois bem, é precisamente quando um Treinador se esquece do contexto em que trabalha com o Chico que o erro surge. Um erro de avaliação. Não tanto de avaliação em relação ao potencial existente no jogador, mas antes um erro de avaliação do contexto e de todas as suas especificidades. E é aqui que o “endeusamento” começa a ser falível...
Porque o “Chico” não vai estar sempre inserido no mesmo contexto. Mesmo que permaneça no mesmo clube até concluir a sua Formação, mesmo que continue a jogar com os mesmos colegas, mesmo que continue a trabalhar com o mesmo Treinador, mesmo que continue a ver e a conviver com as mesmas pessoas, dia após dia, até ao último treino em idade júnior...o “Chico” não vai ser sempre o mesmo.
Alguns dos seus colegas vão evoluir, alguns adversários vão evoluir, as dimensões cognitivas, técnicas, tácticas, físicas e psicológicas do jogo, do grupo em que está inserido e dos adversários serão forçosamente diferentes...e aquilo que hoje faz do “Chico” um “Deus”, aos olhos do seu Treinador, nos sub-15 do “Arrebimba o Malho FC” não será suficiente para que o “Chico” mantenha esse estatuto até aos sub-19.


E se o “Chico” trabalhar com um novo Treinador daqui a um ano, o qual não “endeusa” ninguém e que, apesar de compreender as características únicas de cada um, é apologista de um outro tipo de Liderança? E se até ao final da sua Formação o “Chico” vier a trabalhar com um novo Treinador por ano?
Será que o “Chico” vai saber lidar com um outro género de tratamento? Será que o Chico vai perceber que quando perde a bola deve procurar recuperá-la rapidamente? Será que ele vai perceber que deve fazer parte do Processo Defensivo da sua equipa? Será que ele vai entender a importância de um Sistema de Compensações? Será que ele vai compreender que a tabela é a melhor finta e que a finta é o “Plano Z” a ser utilizado? Só para dar pequenos exemplos do que poderá vir a ser o seu futuro...
Hoje o “Chico” que é “endeusado” pelo seu Treinador nos sub-15 é o mesmo “Chico” que vai chegar aos Seniores e desistir às primeiras não-convocatórias, às primeiras idas ao banco sem utilização e às primeiras reprimendas. Hoje o “Chico” que é “endeusado” pelo seu Treinador nos sub-15 é o mesmo “Chico” que vai chegar aos Seniores sem o mínimo de sentido e responsabilidade de grupo. E nos Seniores, quem não sabe sentir e agir enquanto grupo não pode fazer parte do grupo. Tão simples quanto isto...
Estrelas na Formação? Não, obrigado. Por tudo isto e muito mais...


                                                                         Laurindo Filho

1 comentário:

  1. Boas noites....e se os Chicos forem alogiados na imprensa....qual a sua opinião? obrigado

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