Construir Futebol Amador Apoiado na Visão Profissional


       Porque que razão um clube amador tem de pensar e agir diferente de um clube profissional? Na minha opinião, não tem. Eu não o faço, nunca o farei e tentarei que as pessoas assim o entendam, independentemente de pormenores essenciais a tais diferenças. Uma coisa são os recursos disponíveis, instalações, jogadores, condições, capacidade financeira, etc. Outra bem diferente são as ideias, o trabalho, a entrega, o sofrimento e o sonho.
Primeiro, sejam amadores ou profissionais, todos os Treinadores, todas as Equipas Técnicas são responsáveis e têm obrigatoriamente de assumir a responsabilidade na gestão de um plantel, mesmo que não tenham escolhido atletas e tenham de trabalhar com pessoas que já pertenciam ao clube.
Segundo, se um Treinador não souber gerir a sua Equipa Técnica (e essa mesma Equipa Técnica não souber orientar todo o grupo) é porque não tem controlo sobre si próprio e nunca poderá ambicionar conquistas. O controlo emocional, a adaptabilidade, a frontalidade e a permanente disposição de ajuda são muito importantes 24 sobre 24 horas.
Terceiro, conquistas não são só títulos, por exemplo, conquistas são o melhorar a equipa, tanto no meio desportivo como social. Não há nada mais gratificante do que ajudar uma jogadora no seu dia-a-dia, na sua vida particular, porque isso reflecte-se em todo o grupo desportivo e no rendimento em jogo. Conquista é demonstrar e fazer compreender que o terreno, apesar de difícil e desconhecido, pode ser trabalhado por uma jogadora que nunca soube o que poderia fazer ali. Orientar uma jogadora, principalmente numa fase complicada do seu percurso, leva a uma lógica que deve ser vista fora do contexto do Futebol. Conhecer o meio envolvente e a realidade pessoal é fundamental e por vezes com descobrimentos atrozes.
Baseando-me nestes princípios que defendo, realizo uma ponte entre a minha experiência na presente época, que irá terminar apenas dia 17 de Junho, para falar de conquistas.
Alguém consegue imaginar o que sente uma equipa técnica quando ao fim de 3 semanas de treinos apenas tem disponíveis 9 jogadoras? Alguém consegue imaginar o que sentem e falam dois Treinadores quando vão juntos para casa após o treino? Alguém consegue imaginar o que pensa um Treinador que perde o Pai no primeiro mês de treinos e nas três semanas seguintes apenas tem, no máximo, 10 jogadoras? 
O ultimo parágrafo foi o cenário constante das últimas três semanas de Agosto de 2016  e da primeira semana de Setembro de 2016, com o primeiro jogo oficial marcado para dia 17 de Setembro.


      Primeira conquista: Freitas a puxar por mim e eu a puxar por ele, no sentido de acreditar e procurar soluções para conseguirmos jogar a presente época. Em Outubro, Novembro e Dezembro tudo se equilibrou. Os resultados estavam a aparecer, a equipa compreendeu as lacunas e as dificuldades de cada uma e caminharam tranquilas, sempre com vontade de ganhar.
Segunda conquista: ter uma equipa que, independentemente de todas as fraquezas e dificuldades, iria lutar com dignidade para tentar ganhar todos os jogos. Em Dezembro e Janeiro, muita discussão em campo, pouca comunicação e apenas alguns incentivos isolados a jogadoras mais fracas, lentas e menos experientes. De qualquer forma as vitórias continuavam e o grupo mantinha estabilidade aceitável.
Terceira conquista: no fim de Janeiro, com a equipa no topo da classificação, uma reunião de iniciativa por parte do grupo, obriga a um compromisso uníssono de lutarmos para tentar a presença na segunda fase do campeonato. Com a decisão de lutar pela segunda fase, era evidente a necessidade de fortalecer, não só a Equipa Técnica, mas o grupo ao nível da estrutura física, principalmente na correcção, postura e fortalecimento das jogadoras. A juntar a esta necessidade apareceu uma situação inesperada, a minha necessidade, por motivos profissionais, de estar presente quase todos os dias em Lisboa!
Quarta conquista: a Direcção compreende a minha posição e apoia esta necessidade permitindo a junção de um novo técnico. Com o Ricardo Freitas e o Miguel Rodrigues os treinos ganham uma nova dinâmica e os meses de Fevereiro, Março e Abril serviram, e muito, para estabilizar o grupo. Conquistado o acesso à segunda fase, sabíamos que apenas poderíamos ter uma postura, que passava por manter a nossa identidade de tentar ganhar todos os jogos, sempre com união, nunca esquecendo as lacunas e dificuldades que possuímos. Seria um momento de crescimento para toda a equipa e a conquista de alguma experiência.
Quinta conquista: a entrega, superação, união e inteligência patentes na forma como disputaram a segunda fase, premiaram toda a equipa com a presença na terceira fase que dá acesso à Primeira Divisão.


        Outras conquistas:

- Quartos-de-Final da taça de Portugal

- Presença constante, a partir de Novembro, de 17 jogadoras por treino.

- Jogadoras sem minutos realizados em épocas anteriores, já marcaram esta época. 

- Plantel de 24 jogadoras, super desnivelado, onde todas já jogaram.

- Jogos fantásticos: 2 com Ovarense, 2 Guia, 2 Murtoense, 1 Quintajense e 1 com Estoril.

- 31 jogos, 25 vitórias, 3 empates, 159 golos marcados e 18 sofridos.

- Duas jogadoras no TOP-10 das melhores marcadoras do Campeonato Nacional.

- Grupo constituído por jogadoras muito diferentes, mas unido e forte nos objectivos.

Para ter bases e conquistas no Futebol Amador, obriga a que Direcção, Equipa Técnica e Jogadoras conheçam a realidade do Futebol Profissional para, dentro das suas limitações, construírem a sua identidade em treino e jogo.
O Treinador deve possuir uma estratégia global que inclua todos os departamentos, conhecer muito bem a equipa, analisar e estudar as individualidades que compõem o grupo e, obrigatoriamente, fomentar ideias de futebol positivo no meio de todas as dificuldades.

Filipe Silva




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