É importante o mês de nascimento para o sucesso de um atleta?


No futebol de Formação existem diversas condicionantes que poderão ser decisivas para o despontar de um talento ou para o eclipse de um jogador com bastante potencial.
O “António” e o “Manuel” são dois amigos que praticam futebol numa Escola de Formação. Para além de terem começado a jogar juntos (aos 6 anos de idade) nasceram ambos no mesmo ano. O António, por aprender e aplicar de forma mais rápida os conteúdos presentes no treino e também pela sua evolução física, foi tendo mais oportunidades que o “Manuel”, situação que se arrastou ao longo dos anos de Formação. Mas qual a diferença entre os dois? Neste caso, a diferença entre eles é o mês em que nasceram: o “António” nasceu em Janeiro e o “Manuel” em Dezembro.
Atletas nascidos no mesmo ano, mas em meses diferentes, será a diferença suficiente para afectar a sua evolução?
Cada caso é um caso, mas de forma geral, sim! É sabido que, se as oportunidades de treino e de competição forem diferenciadas, podem reduzir a possibilidade de um potencial talento despontar. Sendo as duas crianças nascidas em diferentes semestres, e tendo o “António” uma significativa diferença de tempo de vida (para estas idades), este vai usufruir do seu físico mais evoluído e também do seu possível avanço a nível cognitivo. Consequentemente esta diferença pode trazer ao “António” maiores possibilidades de ser escolhido quer pelos seus treinadores, quer pelos olheiros da Formação de outros clubes de elite.
        “Uma diferença arbitrária na data de nascimento pode desencadear uma cascata de consequências que, no espaço de alguns anos, cria um fosso inultrapassável entre os que, no início, estavam igualmente bem apetrechados para alcançar o estrelato desportivo” (Syed, 2010).
Os investigadores na área dão-lhe o nome de “efeito da idade relativa” e desde há muito que esta temática é estudada, principalmente a relação do mês de nascimento dos atletas com o chegarem (ou não) mais longe nos escalões de formação.
Da pesquisa e análise efetuadas às datas/semestres de nascimento dos atletas do escalão de sub-19 de clubes de referência a nível Ibérico (época de 2016/2017), chegou-se ao resultado abaixo representado graficamente:


Analisando o gráfico, podemos observar que mais de 70% dos atletas das equipas sub-19 (Real Madrid, Barcelona, Benfica, Porto e Sporting) são nascidos entre Janeiro e Junho (1ºsemestre) podendo a percentagem chegar a valores de 81% e 85%. Em termos práticos, equivale a uma equipa de 26 jogadores em que 22 são nascidos no 1º semestre e apenas 4, no 2º semestre do ano!
Tal como o “Manuel“, existem milhares de atletas com o mesmo problema do “efeito da idade relativa”. Apesar de alguns jogadores nascidos no 2º semestre conseguirem singrar, como é o caso dos famosos futebolistas Pelé, Figo e Benzema, verifica-se que principalmente nos escalões de formação, a grande maioria continua a ser jogadores nascidos no 1º semestre de cada ano.
Como alterar esta situação?
Na minha opinião, não existem soluções fáceis nem consensuais… No entanto, poderia passar pela consciencialização dos treinadores (e dos pais) para a presença deste efeito. Provavelmente as escolhas dos treinadores de formação deixariam de ser focadas não apenas em aspetos meramente físicos do atleta, passando a dar mais importância a aspetos técnico-táticos.
Outra possível solução seria a mudança dos quadros competitivos. Por exemplo, nas fases de maturação onde se verifica uma maior diferença física entre atletas, criar escalões intermédios para que não exista essa discrepância.
E por último, a solução poderia passar por agrupar os atletas por níveis competitivos, ou seja, os jogadores mais competentes e os mais débeis jogam entre si (sem olhar a idades) e assim ambos vão continuar a sua evolução de forma justa e equilibrada.
Há que assumir que o “efeito da idade relativa” existe mesmo e essa discrepância provavelmente só irá diminuir com uma visão a longo prazo da formação dos atletas. É importante deixar de formar os “Antonios” e os “Manueis” só a pensar no presente (na época ou num jogo), passando a pensar-se mais a longo prazo, pois, se forem dadas as mesmas oportunidades a todos, outros talentos poderão surgir e contribuir para um futuro mais equilibrado.

                                                                                    Rui Gomes



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