Um clube é uma
organização desportiva e uma organização desportiva vive de resultados. Quero
deixar esta ideia bem clara porque o fenómeno que vou abordar neste artigo deixa-me
atónito. Não tenho mesmo problemas em revelar que é um caso que passa ao lado
da minha compreensão. Senão vejamos…
Arsène Wenger
é Treinador do Arsenal F.C há vinte e um anos consecutivos. É por larga margem
o Treinador, no activo, com mais tempo consecutivo num clube com aspirações a
vencer todas as competições em que participa. Teve o privilégio de trabalhar
com jogadores de classe ímpar, jogadores que ficarão na história do Futebol Mundial
e gravou a temporada 2003/2004 na memória dos adeptos, vencendo a Premier
League sem qualquer derrota. Feito assinalável, sem dúvida. Mas o mundo não
pára e o Futebol, sendo seu integrante avança, não dorme à sombra dos grandes
feitos. Grandes feitos servem para serem desmistificados, records existem para
serem “quebrados” (a época 2003/2004 ainda não foi), mas acima de tudo a ideia que
deixei vincada acima: organizações desportivas vivem de resultados, trabalho
transformado em sucesso. Vamos então passar à análise do período pós-2003/2004.
E o que se
sucede? Treze anos de jejum no que diz respeito a títulos de campeão nacional,
duas FA Cups (Taça de Inglaterra) e duas Taças da Liga. Cem por cento de participações
na Champions League, mas com resultados pouco animadores. Uma panóplia de
contratações falhadas. E lesões? Digamos que o departamento médico do Arsenal
tem tido anos bastante ocupados, ou seja, como se diz na gíria, o “estaleiro”
tem estado preenchido. Mas o que me passa ao lado da compreensão afinal?
Olho para o
Arsenal como um clube à parte dos restantes. Quando um clube não ganha
normalmente questiona-se tudo. Qualidade dos jogadores, eficácia do Treinador,
filosofias, contextos, métodos de trabalho, logísticas…existe todo um mar de
questões. Uma organização desportiva vive de resultados (vou dizer as vezes que
forem precisas porque acho que o Arsenal nos quer enganar a todos). Porque um
clube não vive sem adeptos e não pode haver adepto satisfeito com a última
década do clube. Dizendo década já estarei certamente a ser simpático.
(Arsène Wenger - Treinador do Arsenal F.C.)
Arsène Wenger
é um Treinador que habituou o público a um Futebol Espectáculo. O seu
jogador-tipo é aquele capaz de ter a bola no pé e criar, criar, criar. Um
Modelo de Jogo assente no Futebol Apoiado, o controlo do jogo através do
controlo da bola, e perante isto, nada a assinalar. Contudo, parece-me que ao
longo do caminho se fechou a uma mudança de paradigma. A sua carreira na
Premier League ficará marcada pelo facto de, após a chegada de José Mourinho ao
Chelsea, nunca mais ter vencido. Elogia-se Mourinho por ter revolucionado o
Futebol Mundial através de novas abordagens ao jogo e Wenger parece ter ficado
para trás, acomodado. Todos os anos é mais do mesmo.
Parece-me
haver uma clara saturação no Arsenal. É um clube que precisa de um rosto novo à
frente da equipa, novas ideias, novos métodos, precisa de uma chicotada valente
e de um acreditar novo. Os adeptos dos Gunners iniciaram um movimento chamado:
“Wenger Out“, traduzindo a sua vontade para que o Treinador abandone o barco. A
saturação já não se encontra só na estrutura (Treinador / Jogadores), pois também
se sente nas bancadas. E quando a saturação passa para a bancada, o homem a
abater é sempre o Treinador, hoje e sempre.
Com efeito, há
que ter em conta que os donos do Arsenal, a empresa Arsenal Holdings PLC, têm
como foco a saúde financeira do clube e não os resultados desportivos. A ideia
inicial terá então de sofrer uma alteração: uma organização desportiva vive de
resultados desportivos quando a sua capacidade financeira está assegurada. Será
isto? Ou será tudo isto um resultado de prioridades? Neste momento olho para
Wenger como um moço de recados. É o rosto de um clube cuja prioridade não é o
Futebol, mas sim o lucro financeiro. Baseio a minha opinião nas inúmeras
declarações ano após ano em que diz que não necessita de novos jogadores.
Agora, sinto-me a delirar por estar perante um Treinador que se sujeita a este
tipo de trabalho. É anti-Futebol, é anti-espectáculo.
Este clube
quer mesmo enganar-nos. É difícil imaginar um Arsenal sem Arsène, mas até que
ponto aguentarão, os donos do clube, a ira dos adeptos dos Gunners e a sede que
têm de títulos?
Pedro Cardoso
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