Um Treinador a trabalhar bem quando não ganha jogos?


Pode parecer estranho, de facto. Trabalhar bem e não ganhar jogos? Mas isso é possível? Bem, na verdade…depende. Depende do Patamar Competitivo em que o Treinador se encontra. Do Clube em que trabalha e das condições que este lhe proporciona. Do Plantel à disposição do Treinador. Da adequação das Ideias e dos Princípios de Jogo que farão parte do Modelo de Jogo a implementar pelo Treinador junto dos seus Jogadores. Depende da conjugação de todos estes factores e de mais uns quantos, para ser sincero convosco.
É assim que entendo esta parte do fenómeno futebolístico. É uma percepção que tenho após cerca de trinta anos ligado ao Futebol. Provavelmente haverá mais pessoas a pensar como eu. Tal como haverá pessoas que discordam desta minha visão e que pensam que o caminho das vitórias é outro, muito diferente daquilo que escrevi no primeiro parágrafo. Independentemente disso há dois factos que me parecem incontornáveis:
- O Futebol está cada vez mais ávido e sedento de vitórias “para ontem”
- Um Treinador nem sempre consegue ganhar tantos jogos quanto o expectável
No Futebol actual as vitórias assemelham-se ao oxigénio. Um Treinador precisa de vitórias para (sobre)viver. Um Treinador precisa cada vez mais de evitar ciclos menos vitoriosos para poder continuar a exercer a sua profissão. Mas mesmo o Treinador cujo Processo de Treino é impecavelmente bem construído, cujo Plantel dá as garantias necessárias para a obtenção dos objectivos da época e cujo Clube fornece as condições ideais para o desenvolvimento de um bom trabalho, até mesmo esse Treinador está sujeito a um período menos bom, menos vitorioso.
Todos sabemos o que acontece normalmente, em Portugal, quando um Treinador atravessa cinco/seis jogos sem vencer, não sabemos? Os Adeptos criticam por tudo e por nada, os Directores começam a “emprenhar pelos ouvidos”, os Empresários começam as manobras de bastidores e tudo ganha uma proporção exagerada e descabida.
Porém ainda há quem pense “outside the box”. Há cerca de três semanas estive numa Formação na Cidade do Lis e tive acesso a uma entrevista feita pelo Jornal de Leiria ao Seleccionador Nacional de Sub-21. Nessa entrevista, Rui Jorge disse o seguinte:


De facto, é difícil, não é? A fome de vitórias leva muitos dos nossos agentes desportivos a estarem mais preocupados com os “fins” e muito menos interessados nos “meios”. Uma postura errada, a meu ver, e um enorme contra-senso, pois acredito plenamente que são os meios a justificar os fins e não os fins a justificar os meios. Talvez por isso entenda tão bem o que Rui Jorge quis dizer…
Tal como entendo o alcance das palavras proferidas por Luís Figo, antigo internacional português, ao afirmar ao jornal O Jogo que…


Ser-se bom e não se obter resultados…Impensável no mundo empresarial, não? Impensável em tantas outras áreas da nossa vida. Porém uma possibilidade presente no Futebol. Em alguns casos, uma realidade espantosa e inesperada, com laivos de inexplicabilidade (o Chelsea campeão em 2014/2015 e que tão mal esteve na temporada seguinte é apenas um exemplo)…
Mas, afinal, podemos ser um bom Treinador e não ter resultados? Pode um Treinador não estar a ganhar e, mesmo assim, estar a fazer um bom trabalho?
Estas duas ideias são incomuns no mundo do Futebol. Diria até que são raras. Especialmente nos países latinos. Mais particularmente em Portugal, onde, em qualquer divisão futebolística de Norte a Sul do País, facilmente encontramos casos de Treinadores que estavam a desenvolver um excelente trabalho, mas que, por terem atravessado um ciclo menos vitorioso, acabaram por ser confrontados com o desemprego. Sérgio Bóris, ex-Cova da Piedade, é o mais recente exemplo desta incapacidade de se ver para além do óbvio.
Já agora, deixo-vos com uma pequena indagação: o que será realmente preciso para se ver para além do óbvio?  

            Laurindo Filho


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