Ser Treinador - Parte I


Em cada parte do Mundo, a qualquer momento, o Treinador encontra-se em “ponto de rebuçado” para ser escrutinado por tudo aquilo que representa. Seja em contexto profissional ou amador, Sénior ou Formação, a realidade que um Treinador tem de enfrentar vai muito além do imaginável, sendo confrontado com situações novas quase todos os dias. Trabalho ingrato este (ou talvez não).
O seu início num novo clube poderá ser o mais agradável possível, mas a verdade é que serão poucos os sítios onde tudo será assim até ao final. Muitas serão as promessas feitas e prontamente quebradas, com o uso de todo o tipo de desculpa, e quem terá de lidar com toda essa desilusão será o “multifunções” de serviço, o Treinador. Penso que não existe nenhum Treinador que goste de perder, sendo que em grande parte dos casos de insucesso existirá um infinito de histórias impensáveis por contar, abafadas pelo líder do grupo que assumirá sempre as culpas do fracasso, tornando-se também, por isso, o elemento mais fácil de abater.
Ser Treinador no presente tornou-se uma profissão cada vez mais ingrata e inglória (vide o caso de Claudio Ranieri): num momento estás a festejar um trabalho anual, no outro, fruto de duas ou três derrotas, cais rapidamente no esquecimento. A verdade é que jogar bem ou mal, lançar jogadores jovens na equipa principal, apresentar resultados ou não, todas estas variáveis poderão não ser tida em conta na hora do despedimento. Ser Treinador tornou-se hoje um caso de solidão sucessiva, de desespero e esgotamento, pois são muitas as horas investidas a batalhar no fortalecimento da equipa, tentando-se desesperadamente corrigir e melhorar aquilo que de mal vem sendo feito pela sua equipa.


Ser Treinador estará sempre ligado a um conjunto de deveres para com uma instituição e com poucos direitos, apenas e simplesmente por se estar sob um contrato. O Treinador terá o dever de fazer milhares ou milhões de pessoas felizes com títulos e uma outra metade infeliz porque o Futebol apresentado não era o melhor possível. O Treinador terá o dever de aceitar vendas de jogadores e rapidamente formular novos jogadores (em tempo escasso), colocando-os a jogar como se tivessem estado presentes naquela equipa durante um longo processo de aprendizagem – o Processo de Treino. O Treinador terá o dever de aceitar que nem tudo o que foi prometido será cumprido, logo, terá de se subjugar a essa nova condição, sendo que, caso não queira, terá a porta de saída aberta. O Treinador poderá formar jogadores e colocá-los num novo patamar e, mesmo assim, poderá não ser o suficiente, pois tudo tem de ser aliado: o processo de aprendizagem constante do jogador (com altos e baixos) e a vitória.
Ser Treinador é hoje uma profissão extremamente exigente, com uma constante evolução de personalidade e de métodos de trabalho numa procura incessante pelo sucesso, seja ele qual for, sendo avaliado constantemente por si próprio e pela opinião pública. Mas e os dirigentes, será que terão essa constante evolução?
Pois bem, ser Treinador é, de facto, uma profissão única. Sou grato por ser Treinador e nunca serei capaz de dizer que é uma profissão ingrata, pois os poucos minutos de glória, seja ela qual for que o Treinador pretenda, chegam para compensar todos os outros momentos de deveres perante alguém. E os direitos do Treinador?
Bem, os direitos do Treinador passam apenas por tentar ser feliz e realizado naquilo que mais gosta de fazer, treinar! 

                                                                                   Ricardo Carvalho


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